“A FENADEGAS, vive um momento exigente e decisivo”
A dimensão da FENADEGAS (Federação Nacional das Adegas Cooperativas de Portugal), reflete a dimensão do setor cooperativo vitivinícola em Portugal. A Federação representa 43 adegas cooperativas, reúne cerca de 22 mil viticultores e abrange uma área próxima de 30 mil hectares de vinha em produção. Nesta entrevista ao Hipersuper, António Mendes, presidente da FENADEGAS, enumera os desafios vividos pelas cooperativas e debruça-se sobre medidas apresentadas conjuntamente pela Federação e pela CONFAGRI, ao Governo, para mitigar os problemas do setor vitivinícola.
Em 2023, a FENADEGAS representou 319 milhões de euros de gastos diretos na economia nacional. Um número que “evidencia a relevância das cooperativas na economia agrícola e rural, com efeitos multiplicadores importantes nas comunidades locais”, destaca António Mendes.
Apesar destes números, as adegas cooperativas enfrentam desafios com custos de produção elevados, alterações climáticas, concorrência nacional e internacional, e outros relacionados com a valorização do produto e o acesso a mercados.
Mas este é um setor altamente resiliente, como frisa António Mendes e mantêm-se “como pilar da vitivinicultura portuguesa”.
Que momento vive a FENADEGAS? Este é um momento desafiante, para a organização e para os seus associados?
A FENADEGAS vive um momento exigente e decisivo. Exigente porque o setor enfrenta pressões significativas: custos de produção elevados, instabilidade nos mercados, maior concorrência internacional e alterações nos padrões de consumo.
É decisivo porque obriga a acelerar processos de modernização, adaptação comercial e reposicionamento estratégico. Representando praticamente todas as regiões produtoras, a Federação tem a responsabilidade de defender o modelo cooperativo, apoiar os viticultores e contribuir para a garantia do escoamento sustentável da produção.
É, portanto, um momento desafiante, mas também uma oportunidade para reforçar o papel das cooperativas como estruturas de organização, estabilidade económica e coesão territorial.
– Qual foi o volume (milhões de litros), a nível nacional, da produção dos associados? O que representa no global da produção de vinho no país?
De acordo com os dados do IVV, na campanha 2024/2025 as Adegas Cooperativas receberam 2.480.350 hectolitros, equivalentes a cerca de 248 milhões de litros, correspondendo a aproximadamente 36% da produção nacional.
Mais importante do que o número absoluto, é o facto de esta produção resultar do trabalho de milhares de viticultores, em muitos casos pequenos produtores, para quem a cooperativa é o principal garante de escoamento, valorização e estabilidade económica. Estes números confirmam o peso estrutural do setor cooperativo na vitivinicultura portuguesa.
– Partindo desse número, e dos outros destacados no estudo, são de monta os efeitos diretos e indiretos da atividade económica das adegas cooperativas deste setor e dos seus produtores associados?
Sem dúvida. A receção de 2,48 milhões de hectolitros, equivalente a 36% da produção nacional, traduz um impacto económico direto e indireto significativo.
As cooperativas geram emprego, aquisição de bens e serviços, investimento industrial, logística, energia, transporte e comercialização, bem como um efeito multiplicador nas economias locais.
O estudo que aponta 319 milhões de euros de gastos diretos em 2023 evidencia a dimensão do setor. Em muitas localidades do interior, onde o comércio e outras atividades desapareceram, a Adega Cooperativa continua a investir, a comprar uva e a garantir rendimento às famílias, funcionando como uma das últimas âncoras económicas do território.
– Sem as Adegas Cooperativas, o modelo de produção de vinho em Portugal desapareceria? Pergunto isto, pelo papel/importância junto dos pequenos produtores.
Sem as cooperativas, uma parte significativa da vitivinicultura portuguesa, tal como a conhecemos, deixaria de existir, sobretudo nas regiões com predomínio de pequenos e médios produtores.
As cooperativas asseguram escoamento, transformação, certificação e valorização da uva, funcionando também como fator de equilíbrio territorial e evitando o abandono da vinha. São, portanto, um instrumento de coesão social e preservação do património vitícola nacional.
– Há ainda outra questão: o impacto nas comunidades envolventes. É grande, em termos de geração de empregos e de fixação de pessoas?
Sim. As cooperativas são estruturas económicas completas, gerando emprego direto e indireto ao longo do ano, desde a produção agrícola à enologia, logística, laboratório e administração.
Além disso, asseguram fixação de população, manutenção de serviços e continuidade da atividade agrícola. Em muitos concelhos, a presença de uma Adega Cooperativa é essencial para que o território continue vivo e produtivo.
– Que evolução sentiu nas adegas cooperativas nos últimos 45 anos, ou seja, desde a fundação da FENADEGAS? São estruturas com modelos de governance mais modernos e mais abertas a processos inovadores, seja no campo, seja na industrialização e até na comercialização?
A evolução tem sido profunda. Hoje, as cooperativas são muito mais profissionalizadas, com equipas técnicas qualificadas, tecnologia de vinificação avançada, laboratórios, rastreabilidade e modernização industrial.
Ao nível da governança, adotaram modelos mais transparentes e rigorosos, com maior capacidade de planeamento e qualificação das estruturas de decisão.
A inovação estende-se ao campo, com viticultura de precisão, sustentabilidade, mecanização e adaptação às alterações climáticas, bem como à comercialização, com presença consolidada em mercados externos. O setor está, portanto, preparado para competir, inovar e enfrentar os desafios do futuro.
– Segundo o estudo, nas últimas campanhas mais de 90% da produção das adegas cooperativas correspondeu a vinhos aptos às certificações IGP e DOP. E vemos cada vez mais adegas cooperativas com vinhos premiados a nível nacional e internacional. Deve-se a uma evolução de ‘mentalidade’ dos produtores ou é mais do quer isso?
É fruto de uma mudança de mentalidade, investimento e organização. Os produtores passaram a encarar a qualidade como estratégia, apoiados por tecnologia, controlo rigoroso, laboratórios e acompanhamento técnico.
A aposta na certificação IGP/DOP e nos prémios reflete gestão profissional, valorização da marca e promoção da inovação, permitindo consolidar presença no mercado e afirmar a qualidade do vinho português.
– Como se posicionam os vinhos das adegas cooperativas, na exportação? Estão em mercados um pouco pelo globo? Distinguem-se mais pela capacidade de quantidade cada vez mais pela qualidade?
Os vinhos têm presença consolidada em União Europeia, Brasil, Angola América do Norte, Ásia entre outros, mostrando capacidade de resposta à procura global.
Hoje, o posicionamento vai além da quantidade. Vinhos certificados, premiados e com marcas reconhecidas concorrem pelo mérito enológico e reputação, mantendo o equilíbrio entre escala e qualidade, garantindo sustentabilidade económica e valorização da produção.
– Quando se fala em sustentabilidade, como trabalha a FENADEGAS a sustentabilidade ambiental junto dos seus associados, no âmbito do Plano Nacional de Sustentabilidade?
A sustentabilidade ambiental é prioridade estratégica. Várias Adegas Cooperativas já têm o PNS implementado e acreditado, mostrando compromisso com práticas concretas e verificáveis.
No terreno, inclui-se: gestão eficiente de água e energia, viticultura sustentável, valorização de resíduos e formação contínua. O objetivo é produzir vinhos de qualidade de forma sustentável, assegurando competitividade e continuidade da atividade agrícola para as próximas gerações.
– Em relação a outro fator ESG importante – a sustentabilidade económica – como o trabalha a Federação junto dos associados? Por exemplo em relação a três tendências importantes: a redução de consumo a nível mundial, a procura por vinhos com teor alcoólico mais baixo, o interesse em vinhos biológicos e vinhos zero álcool.
A FENADEGAS tem papel institucional e informativo: acompanha tendências globais e fornece informações relevantes aos associados, permitindo-lhes tomar decisões mais fundamentadas.
Algumas cooperativas têm explorado:
- Vinhos com teor alcoólico mais baixo,
- Vinhos biológicos e sustentáveis,
- Vinhos de baixo ou zero álcool.
A Federação garante que os associados estão informados e conscientes das tendências internacionais, ajudando-os a manter competitividade e viabilidade económica.
– Que demais desafios enfrentam diariamente?
As cooperativas lidam com custos de produção elevados, alterações climáticas, concorrência nacional e internacional, e valorização do produto e acesso a mercados.
Apesar destes desafios, o modelo cooperativo é resiliente, permitindo enfrentar dificuldades com planeamento, coesão interna e visão estratégica, mantendo o setor como pilar da vitivinicultura portuguesa.
– Em julho do ano passado, a FENADEGAS e a CONFAGRI apresentaram ao ministro da Agricultura e Mar, um documento com 70 medidas para mitigar os problemas do setor vitivinícola. Quais são as mais urgentes e porque, entre estas, referem a Taxa do Ponto Verde?
Das 70 medidas apresentadas, algumas destacam-se pela urgência e impacto imediato no setor. Entre estas, consideramos prioritárias:
- Reversão e reavaliação da Taxa do Ponto Verde: o aumento aplicado em 2025, superior a 160% em muitos casos, retira margem de lucro significativa às cooperativas e produtores, especialmente os pequenos, e afeta diretamente o preço final ao consumidor. É urgente corrigir este desequilíbrio e criar mecanismos compensatórios ou incentivos verdes.
- Gestão do arranque e abandono de vinha: medidas que previnam o abandono e valorizem as vinhas existentes, incluindo zonas vulneráveis ao abandono, benefícios fiscais e apoio ao arrendamento.
- Apoios à instalação de jovens agricultores e à compra de vinhas em produção, garantindo transmissão e continuidade da atividade vitícola.
- Segurança e sustentabilidade financeira das cooperativas, como linhas de crédito para reestruturação de dívida e garantias para pagamento atempado das uvas aos produtores.
- Promoção e valorização do vinho português, tanto no mercado nacional como externo, com reforço das verbas, programas de marketing e contratação de jovens profissionais.
- Medidas de regulação de stocks, incluindo destilação de crise e colheita em verde, aplicadas de forma seletiva e protegendo os produtores nacionais.
Estas medidas são urgentes porque atuam diretamente na sustentabilidade económica, na proteção dos viticultores e na competitividade do setor, enquanto outras, estruturantes a médio/longo prazo, visam modernização, inovação e sustentabilidade ambiental, garantindo robustez futura do setor.
– O poder público (governo, ministério, institutos) tem sido um aliado no trabalho e nas necessidades das adegas cooperativas? Tem havido espaço para uma colaboração – e não apenas na atribuição de apoios e de fundos, mas nas necessidades no terreno? Qual deverá ser o modelo de cooperação?
O poder público tem sido parceiro importante, mas a colaboração ideal envolve diálogo contínuo e compreensão das necessidades reais das cooperativas.
O modelo defendido é baseado em participação ativa, troca de informação e planeamento conjunto, equilibrando interesses dos produtores e sustentabilidade económica, social e ambiental.
– O que é preciso alterar, nos modelos de promoção, tanto a nível nacional como junto dos mercados externos?
A promoção deve ser mais estruturada, coordenada e orientada para resultados.
- Nacional: reforçar qualidade, diversidade, certificação IGP/DOP e identidade regional.
- Internacional: presença estratégica e segmentada, comunicação consistente e narrativa de qualidade e sustentabilidade.
O objetivo é reforçar a posição dos vinhos cooperativos como referência de qualidade, tradição e inovação.
– Que modelo de futuro defende para as adegas cooperativas, sendo estas estruturas com uma tendência para receberem cada vez menos sócios?
O futuro passa por modernização, sustentabilidade e valorização regional, independentemente do número de sócios. O que importa é a quantidade de uva recepcionada. Hoje, os produtores são mais profissionalizados, com áreas maiores, permitindo operações mais eficientes.
As cooperativas devem reforçar profissionalização, inovação tecnológica e comercial, mantendo compromisso com pequenos e médios produtores.
O modelo de futuro é flexível, sustentável e centrado no território, conciliando escala, qualidade e coesão social. A cooperativa é uma plataforma estratégica de apoio aos viticultores, promovendo inovação, sustentabilidade e competitividade do vinho português, mantendo vivo o vínculo entre produtores e território.
Hipersuper nº 442 fev 2026
Jornalista Ana Grácio Pinto









